Luís Delfino, alguns sonetos

In her book

Ela andou por aqui, andou: primeiro,
Porque há traços de suas mãos; segundo,
Porque ninguem como ela tem no mundo
Este esquisito, este suave cheiro!..

Livro, de beijos mil teu rosto inundo,
Porque pousaste sobre o travesseiro
Onde ela dorme o seu dormir ligeiro
Como sono de estrela em céu profundo.

Trouxeste dela o olor de uma caçoula,
A luz que canta, a mansidão da rôla
E esse estranho mexer de etéreos ninhos. .

Ruflos de asas, amoras dos silvedos
Frescuras de água, sombras e arvoredos
Dando seca aos rosais, pelos caminhos.

**

Sós

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Norbert Goeneutte

Deixemos pó, rumor, luxo às cidades:
Ninguem saiba onde eu moro, onde tu moras:
No campo, longe, unindo as nossas horas,
Unam-se as nossas duas mocidades.

Nossa paixão tem loucas ebriedades,
Cantos, que em si contêm nascer de auroras,
Que em si ruflam canções de asas sonoras
E idílios cheios de imortalidades.

O nosso amor é simplesmente humano:
Dura um instante, ou dois, um dia, um ano:
Pode ainda durar a vida inteira…

De nossa alma amorosa essência pura,
Quem sabe o tempo que uma essencia dura
E o tempo que inda o frasco exausto cheira?…

**

Os seios

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Woman with a Parrot [detalhe], 1866, por Gustave Courbet.

Nunca te vejo o peito arfar de enleio,
Quando de amor ou de prazer te ebrias,
Que não ouça lá dentro as fugidias
Aves, baixo alternando algum gorgeio.

Aves são, e são duas aves, creio,
Que em ti mesma nasceram, e em ti crias
Ao arrulhar de castas melodias
No aroma quente e ebúrneo do teu seio;

Têm de uns astros irmãos o movimento,
Ou de dois lírios, que balouça o vento,
O giro doce, o lânguido vai-vem.

Oh! quem me dera ver no próprio ninho
Se brancas são, como o mais branco arminho,
Ou se asas, como as outras pombas, têm..

**

Depois do Eden

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Autumn fruit [detalhe] por Hugo Charlemont

Quando a primeira lágrima, caindo
Pisou a face da mulher primeira,
O rosto dela assim ficou tão lindo
E Adão beijou-a de uma tal maneira,

Que anjos e tronos, pelo espaço infindo,
Como uma catadupa prisioneira –
As seis asas de luz e de ouro abrindo,
Rolaram numa esplêndida carreira…

Alguns, pousando à próxima montanha,
Queriam ver de perto os condenados
De dor transidos, na agonia estranha…

E ante o fulgor dos beijos redobrados
Todos pediam punição tamanha,
Ansiosos, mudos, trêmulos, pasmados…

**

Luís Delfino dos Santos (25 de Agosto de 1834, Santa Catarina-31 de Janeiro de 1910, Rio de Janeiro)

Referências:

LOUSADA, Wilson. Cancioneiro do Amor: os mais belos versos da poesia brasileira. 2. edição. Livraria José OLYMPIO Editora (Rua do Ouvidor, 110). Rio de janeiro, 1952.

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