Prefácio de Cecília Meireles a “Cartas a um jovem poeta”, 1953

“Não se vai tentar a tarefa quase impossível de falar de Rainer Maria Rilke na brevidade desta apresentação de duas de suas obras, talvez as mais fáceis de traduzir e de explicar, por se comporem, a primeira, da série de dez cartas que dirigiu, entre 1903 e 1908, e, a segunda, do poema “A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke”, que, por muito que nos traga de sonho, como toda a obra do poeta, é, no entanto, das suas páginas mais objetivas, e construído sobre a realidade de um documento que lhe serve de prólogo.

Este prefácio visaria especialmente falar da primeira das traduções, de que se ocupou o Sr. Paulo Rónai, poliglota e erudito já incorporado às letras brasileiras, e que verteu para o nosso idioma com a exatidão possível – considerando-se o que há de intencional na linguagem de Rilke – essas cartas tão ricas de outra substância, além do simples conselho literário. Se alguma vez se sente, na tradução, certa obscuridade, ela é como a do original: por estarem as palavras obedecendo à fidelidade do pensamento, mais que à facilidade da elocução.

Quanto ao conteúdo dessas cartas, que tão singularmente deveriam sobreviver como uma espécie de mensagem, solicitada por Kappus, mas útil a tantos destinos, conviria chamar a atenção do leitor para alguns dos seus pontos mais interessantes.

Inicialmente, é curioso notar – qualquer que tenha sido o destino de kappus nas letras – o efeito que sobre o jovem poeta produziram os primeiros poemas de Rilke, muito jovem também, naquele tempo. Essa é uma das maus autênticas consagrações da poesia, no que ela possui de tradicionalmente mágico, de originalmente divino. O Rilke dessas cartas é como um intermediário de mistérios, uma espécie de oráculo, que se consulta e em que se crê.

Talvez, na verdade – e isso já vem a seguir – Kappus não lhe tenha inspirado, com seus escritos, uma veemente esperança. Mas Rilke não iria colocar, à maneira dos críticos, uma nuvem sobre os seus sonhos de fazer e sentir Poesia. De mil modos delicados, porém, lhe iria indicando as mil condições favoráveis para se aproximar do sonho, para chegar à sua margem, ao menos – umas vez que nem sempre a travessia é permitida. O que entre essas mil indicações diversas ficasse em silêncio, e mais obscuro, palpitando, aí estaria, verdadeiramente, o seu discreto, cálido, religioso conselho. Não ignorava o que é necessitar de alguém aquele que, pela mesma época, escrevia a Auguste Rodin pedindo-lhe, por sua vez, conselhos sobre o segredo de viver e criar.

Do exemplo que recebe, do consolo que para si extrai, pairando em redor do grande escultor como um pássaro em torno de uma rocha, vai tecendo essas cartas que são como a sua própria experiência purificada e revelada.

Por isso, as respostas de Rilke não oferecem a Kappus uma receita literária, embora digam coisas essenciais sobre o exercício da literatura. Vão mais longe: tratam da formação humana, base de toda criação artística.

Um pequeno trecho de Cartas a um jovem poeta

De literatura, propriamente, pouco falam as cartas. Podem ser resumidos os conselhos do poeta em algumas linhas: escrever só por absoluta necessidade, evitar temas sentimentais e formas comuns, escolher as sugestões oferecidas pelo ambiente, a imaginação e a memória, não dar importância aos críticos, não ler tratados de estilo.

O resto é muito mais importante, uma vez que a parte formal da arte acaba sempre por se realizar, quando atrás dela há uma imposição total de vida transbordante. Por isso, aplica-se a valorizar aos olhos do jovem Kappus, a necessidade de um mundo interior; de uma clarividência; de um gosto da solidão, constante e inteligente; de uma visão diversa do amor; de uma ternura pela natureza e pelos mínimos aspectos das coisas; de uma paciência interminável; de uma aceitação leal de todas as dificuldades; de uma fidelidade à infância; de uma expectativa de Deus; de uma compreensão mais humana da mulher; de uma disciplina poética humilde e vagarosa. Mas sobretudo a solidão assume, nessas cartas, um caráter de heroísmo e de magnificência, – a ponto de poder dizer que o homem solitário pode preparar muitas coisas futuras porque as suas mãos erram menos”.

***

Prefácio retirado do livro “Cartas a um jovem poeta (trda. de Paulo Rónai) e A canção de amor e de morte do porta-estandarte Cristóvão Rilke (trad. de Cecília Meireles)” escrito por Cecília Meireles. O livro é da editora Globo. A primeira edição é de 1950, mas a que tenho em mão (adquirida no sebo Traça) é de 1975 (7. ed).

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