Emily Dickinson: poemas sobre a morte

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Horas felizes aqui pereceram,
Este é um poderoso recinto;
Em seus espaços brincaram esperanças-
Hoje sombras, tão só, no jazigo.

**

Se eu não mais ostentar uma rosa
Em dias de festival,
Será porque, para além da rosa,
Fui chamada a retornar.

Se eu não mais disser os nomes,
Por minhas flores celebrados,
Será porque os dedos da morte
Cerraram meu balbuciante lábio.

**

Ergue-se o arco-íris, após longa tormenta-
Nesta manhã tardia, o sol;
Como indolentes elefantes, as nuvens
Andam dispersas pelo horizonte.

Alegres despertam, nos ninhos, os pássaros-
O vento, é certo, amainou;
Mas – ai! – quão desatentos os olhos
Em que o verão rebrilhou!

A calma indiferença da morte
Por nenhuma aurora se abala-
Sílabas do lento arcanjo
É  que devem despertá-la.

**

Empoeirado se mostra o mundo,
Ao nos determos para morrer:
Queremos, então, o orvalho –
As homenagens têm sabor seco.

Os pendões afligem um rosto agonizante,
Porém o mais prosaico leque,
Movido por mão amiga,
Feito chuva nos refresca.

Que minha seja a missão,
Quando tua sede chegar,
De trazer os bálsamos* de Hybla*
E os rocios*  da Tessália*.

Notas:
bálsamos= aqui pode ter o sentido figurado de consolação, alívio.
Hybla= pode-se referir à Deusa da Terra, Hybla. O nome relaciona-se com um monte na Sicília, Itália, conhecido antigamente pelo perfume das flores e pelo mel.
rocios= gotas de umidade que, por condensação, se depositam durante a noite na superfície da terra. = orvalho; orvalhadas, orvalhos, serenos. 
Tessália= pode-se se referir a uma antiga região da Grécia. Local onde há o famoso e mitológico Monte Olimpo, montanha mais alta da Grécia.

**

seraillustration

Ele chegou afinal, mais ágil porém a Morte
Havia ocupado a casa:
A pálida mobília já disposta,
Junto com a sua paz metálica.

Ó fiel geada, que observaste a data!
Tivesse o Amor sido tão pontual,
A alegria teria feito mais alto o portão
E bloqueado sua entrada.

**

Ali, onde a perda ocorreu, piso com mais cuidado-
Flores de jardim aí semeio,
Detenho-me junto à fronte tombada
E choro.

A quem perdi docemente protejo
De um som mais áspero ou palavra dura,
Como se seu travesseiro escutasse,
Sendo pedra, embora.

Quando ocorreu a perda, saberás
Por meu chapéu negro, a crepuscular casula
E um leve tremor, assim,
Na voz.

Por que a perdi, sabe a gente
Que, em vestes da mais pura neve,
Rumou para casa faz um século
E é feliz, agora.

**

Fascina-me um olhar em agonia,
Por saber que é verdadeiro:
Não se fingem convulsões,
Nem simula-se uma dor.

Descem brumas sobre os olhos –
– É a morte – impossível falsear
As contas, pela cruel angústia,
Na fronte alinhadas feito um colar.

Nota:
bruma= escuridão; mistério; nevoeiro espesso.

**

Referências:

DICKINSON, Emily. Emily Dickinson: poemas escolhidos. Trad. Ivo Bender. Porto Alegre: L&PM, 2016.

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