O quinze (1930), de Rachel de Queiroz

em
“Retirantes’ (1944), do artista brasileiro Cândido Portinari.

“Sombras vencidas pela miséria e pelo desespero que arrastavam passos inconscientes, na derradeira embriaguez da fome” – Cap. 13, p. 75.

Romance de estreia da escritora brasileira, publicado em 1930, O quinze retrata a seca de 1915 vivida por Rachel na sua infância. Assim como em outros romances da década de 30, como Vidas Secas (1938), destaca-se nessa obra a realidade cruel da seca, da fome, da miséria, da emigração, da morte etc.

No Sertão do Nordeste, em uma área rural, perto da região do Quixadá (munícipio do Ceará, lugar onde a escritora tem uma relação próxima, mesmo não sendo dali), pessoas conhecidas, que trabalham em fazendas e cuidam de criação, ou vivem a sua velhice por ali, como a personagem dona Inácia (mãe Nácia), sentem os efeitos da falta de chuva, que causa uma seca prolongada.

O livro inicia-se narrando o término da oração de dona Inácia, avó de Conceição, pedindo a São José que traga chuva. Rios (1999) esclarece que muitos sertanejos são devotos de São José, padroeiro do Ceará, e o dia desse santo (19 de março) “apresenta-se como o anunciador de um bom inverno ou de uma seca: se chover nesse dia é sinal de inverno; se não chover, muitos sertanejos perdem a esperança e começam a abandonar o sertão” (RIOS, 1999, p. 33).

Já era o fim do mês e inda não chovera:

“Era raro e alarmante, em março, ainda se tratar de gado. Vicente pensava sombriamente no que seria de tanta rês (gado), se de fato não viesse o inverno. A rama já não dava nem para um mês” (QUEIROZ, 2006, p. 15, grifo meu)

Nesse contexto, a história tem dois enfoques: a relação entre Conceição e o vaqueiro Vicente; e a tentativa de sobreviver à seca feita pela família do Chico Bento.

Conceição é neta da dona Inácia, que mora no Logradouro, fazenda antiga da família. Ela é professora, e passa as férias da escola com sua avó. Culta, leitora e com até ideias progressistas a respeito da mulher (lia livros franceses sobre o assunto). “Conceição tinha vinte e dois anos e não falava em casar. As suas poucas tentativas de namoro tinham-se ido embora com os dezoito anos…” (p. 15).

Vicente trabalha cuidando do gado na fazenda da família e namorava sua prima Conceição.

“Todo o dia a cavalo, trabalhando, alegre e dedicado, Vicente sempre fora assim, amigo do mato, do sertão, de tudo o que era inculto e rude (diferente de Conceição = culta). Sempre o conhecera querendo ser vaqueiro como o caboclo desambicioso, apesar do desgosto que com isso sentia a gente dele” (p. 21, grifo meu)

Conceição trazia um espécie de acalento na sua vida rude, trabalhosa e difícil devido às secas:

“Só Conceição, com brilho de sua graça, alumiava e florescia com um encanto novo a rudeza da sua vida” (p. 48)

*

“Havia de ser quase um sonho, ter por toda a vida, aquela carinhosa inteligência a acompanhá-lo. E seduzia-o mais que tudo a novidade, o gosto de desconhecido que lhe traria a conquista de Conceição, sempre considerada superior nomeio das outras, e que se destacava entre elas como um lustro de seda dentro de um confuso montão de trapos de chita” (p. 49).

Enquanto a seca vai sugando a vitalidade das pessoas e o colorido da natureza, a relação de Vicente e Conceição vai desbotando-se. Há uma distância, que não é física, entre os dois que aos poucos vai distanciando o casal. A seca, a eterna luta contra ela, endurecera o coração cansado de Vicente.

Já Chico Bento morava e trabalhava para a dona Maroca das Aroeiras com sua mulher, Cordulina, sua cunhada e seus cincos filhos pequenos (destacam-se Josias, José e Manuel, ou melhor, Duquinha). A proprietária manda Chico abrir as porteiras e soltar o gado se não chover até o dia de São José. Durante a seca que se confirmava, Chico e sua família ficam sem serviço – sem sustento.

“Agora, ao Chico bento, como único recurso só restava arribar.

Sem legume, sem serviço, sem meios de nenhuma espécie, não havia de ficar morrendo de fome, enquanto a seca durasse” (p. 31)

Ele decide ir para o Amazonas, sonhando com uma vida melhor. Inicialmente, tenta ir de trem, mas não consegue passagens; assim, é obrigado a ir a pé. Com muito custo, sofrimento e fome, eles chegam à cidade mais próxima de onde moravam e vão parar em um “campo de concentração” junto com vários flagelados. Quando chegam lá, a família já não é a mesma de outrora.

Perdem Josias, que morre e é enterrado na estrada; Duquinha, afilhado de Conceição, que desnutrido e muito doente, é adotado por ela; Pedro, que desaparece em Acarape.

A imagem que o narrador nos dá do estado físico do Duquinha, após chegar na cidade, é marcante. Compara a mão da criança com uma garra seca:

“Mas Conceição, que tivera a intenção de o tomar ao colo, recuou ante a asquerosa imundície da criança, contentando-se em lhe pegar a mão – uma pequenina garra seca, encascada, encolhida… ” (p. 95)

Os “campos de concentração”

“E só chegava à tardinha, fatigada, com os olhos doloridos de tanta miséria vista, contando cenas tristes que também empanavam de água os óculos da avó” (p. 77)

Conceição convence sua avó a ir para a cidade com ela, devido a seca. E ambas ficam por lá desde o início da seca. A professora ajuda os “flagelados” que chegam na cidade tentando sobreviver e são postos em um “campo de concentração”. Esses campos existiram de verdade nessa região. Não é algo como o ocorrido no holocausto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Nesses campos do sertão nordestino, o governo colocava os retirantes que fugiam da seca, da fome e da pobreza, mas a situação ali não era muito animadora e esperançosa para eles.

“E sem saber como, acharam-se empolgados pela onda que descia, e se viram levados através da praça de areia, e andaram por um calçamento pedregoso, e foram jogados a um curral de arame onde uma infinidade de gente se mexia, gritando, acendendo fogo” – Cap. 15, p. 92, grifo meu

A respeito disso, em seu estudo da seca de 1932, Rios afirma que a seca de 32 e outras anteriores foram usadas pelo poder público para ter mão de obra nas construções da cidade:

Esta seca foi largamente utilizada pelos poderes na construção de obras urbanas: calçamentos, prédios, casas particulares, reforma nas fachadas das casas. No entanto, essa prática de exploração da mão-de-obra do flagelado já se verificava em secas anteriores (Rios, 1999, p. 35).

Chico Bento, necessitando alimentar sua família, consegue com muito custo um emprego em uma barragem que lhe paga mal. Logo após voltar de um dia muito sofrido debaixo do sol escaldante no serviço, Chico aparece no campo com alguma coisa de comer para seus filhos: era apenas um pão, uma rapadura e um pouco de café.

“E o alvoroço da meninada que o acolheu, e lhe arrebatou as compras, bem lhe pagou as tristes horas do dia, curvado sobre a pá, em tempo de morrer de calor e cansaço…” (p. 107).

“Já era tão antiga, tão bem instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!…” (p.106, quando Chico almoça no serviço).

“O comer era quando Deus fosse servido” (p. 68)

*

O final da história de Chico e sua família é cheio de incertezas, assim como no final de Vidas Secas. As famílias partem para um lugar novo – a cidade grande – em busca de uma vida melhor, o que não significa que será sem sofrimentos.

**

Referências:

QUEIROZ, Rachel. O quinze. 82 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006.

RIOS, Kênia. A cidade do sol à sombra do Flagelo. Projeto História – Campo e Cidade, São Paulo: PUC – EDUC, n. 19, 1981.

______. O curral dos flagelados: os campos de concentração no Ceará durante a seca de 1932.. Revista Canudos, v. 3, n. 1, p. 33-41, 1999. Disponível em: <https://www.revistas.uneb.br/index.php/canudos/article/view/6387&gt;.

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