Poema [Fernando Pessoa]

Ó sino da minha aldeia, Dolente na tarde calma, Cada tua badalada Soa dentro da minha alma. E é tão lento o teu soar, Tão como triste da vida, Que já a primeira pancada Tem o som de repetida. Por mais que me tanjas perto, Quando passo, sempre errante, És para mim como um sonho,…

Tanto de meu estado me acho incerto [Luís de Camões]

Tanto de meu estado me acho incerto, Que em vivo ardor tremendo estou de frio; Sem causa, juntamente choro e rio, O mundo todo abarco, e nada aperto É tudo quanto sinto um desconcerto: Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Agora espero, agora desconfio; Agora desvario, agora acerto. Estando em terra,…

Quem diz que Amor é falso ou enganoso

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido,Sem falta lhe terá bem merecidoQue lhe seja cruel ou rigoroso. Amor é brando, é doce e é piedoso;Quem o contrário diz não seja crido:Seja por cego e apaixonado tido,E aos homens e inda aos deuses odioso. Se males faz Amor, em mi se vêem;Em…

“Amor de perdição”- resenha e algumas anotações

O então estudante de Coimbra, Simão Antônio Botelho, apaixona-se por Teresa Cristina de Albuquerque, filha de Tadeu de Albuquerque, rival do pai de Simão, Domingos José Correia Botelho de Mesquita e Meneses, e sua família. Ele se apaixona por Teresa, então sua vizinha, ao vê-la pela janela do seu quarto, onde “a vira pela primeira…

Verdade, Amor, Merecimento [Luís de Camões]

Luís Vaz de camões Verdade, Amor, Merecimento,Qualquer alma farão segura e forte,Porém Fortuna, Caso, Tempo e Sorte,Têm do confuso mundo o regimento. Efeitos mil resolve o pensamento,E não sabe a que causa se reporte,Mas sabe que o que é mais que vida e morte,Que não o alcança o humano entendimento. Doutos varões darão razões subidas,Mas…

LEDA SERENIDADE DELEITOSA [Luís Vaz de Camões]

Leda serenidade deleitosa, Que representa em terra um paraíso; Entre rubis e perlas, doce riso, Debaixo de ouro e neve, cor-de-rosa; resença moderada e graciosa, Onde ensinando estão despejo e siso Que se pode por arte e por aviso, Como por natureza, ser formosa; Fala de que ou já vida, ou morte pende, Rara e…

A UNS QUINZE ANNOS (1865), de Luís Guimarães Jr.

M. L És doce e pura e saudosa Como um perfume de rosa, Que pouco a pouco de esváe: És como o frouxel d’um ninho, Os trinos d’um passarinho, Uma pétala que cáe. És alva e meiga e divina Como a nevoa peregrina Da madrugada ao surgir: O céu teu riso enamora, Os anjos formam…

Amor é fogo que arde sem se ver

Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer. É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder. É…

DIÁRIO LÚCIDO

A minha vida, tragédia caída sob a pateada dos anjos’ e de que só o primeiro acto se representou. Amigos, nenhum. Só uns conhecidos que julgam que simpatizam comigo e teriam talvez pena se um comboio me passasse por cima e o enterro fosse em dia de chuva. O prémio natural do meu afastamento da…